
Meu amor,
Você está chegando na casa dos trinta anos. Não sendo mais uma adolescente, peço que reflita comigo:
Você foi uma menininha como as outras, foi cuidada e amada como as outras, mostrei para você, assim como para as outras, os ônus e os bônus das responsabilidades da vida.
Pensando bem, você teve até mais oportunidades que suas irmãs: cursos de teatro, ginástica olímpica, curso superior, só para citar alguns.
Mas você não completou nenhum deles. Preferia nos enganar, fumar maconha com os drogados, freqüentar lugares não recomendáveis, às escondidas.
Enfim, tomou o caminho errado. Não adiantaram nossas conversas, nossa ajuda, nosso aconchego. A rua era seu palácio. E nada, mas nada mesmo amolecia seu coração.
Veio a primeira filha, veio a segunda, que seu pai e eu estamos criando, educando e mostrando caminhos para ambas, morrendo de medo dos tropeços. Vigiamos a cada minuto nossas atitudes, agarrados à mão de Deus, para que tenhamos êxito.
Estamos sempre tentando: clinica, acolhida, acolhida, clinica. Nada resolve.
De fato, constato que esta é uma doença fatal, progressiva e incurável.E isto só pode ser modificado, se você quiser.
Porém, a cada dia que passa seus defeitos de caráter mais se sobressaem, e o convívio vai ficando mais difícil e esse querer tão necessário, se afastando mais de sua vontade.
Tento mais uma vez: ligo para você, no meio da noite, (você mora pertinho), pedindo a ajuda de sua companhia para a filha que está com febre. Depois de muito tempo, você atende ao telefone e me pergunta “se precisa mesmo vir”. Não, não precisa. Desligo e resolvemos a parada entre nós: Eu fico com a que está dormindo e seu pai vai ao pronto socorro cuidar do nosso amorzinho dodói.
Tristemente constato que esta doença é realmente de cunho espiritual.
É a doença da falta de amor próprio e ao próximo (egoísmo), da falta de caridade, da solidão. Tanto que o tratamento é feito através dos “12 passos espirituais”, encontrados nas salas maravilhosas de NA.
Mas você não acredita nem em Deus, nem em NA. Só vai lá para ver e abater os gatinhos incautos. Todos doentes e lindos. Como você.
Eu queria tanto que fosse diferente. Mas minha vontade não conta. Nem a de Deus. Ele em sua infinita bondade lhe concede o bem maior que é o livre arbítrio.E eu, como humana, não consigo nem entender esta sua escolha: Ele deu-lhe uma inteligência privilegiada, uma família amorosa, duas filhas lindas e perfeitas, amores verdadeiros, que você troca por casa e roupas sujas queimadas de crack, pelas humilhações que envolvem o uso, pela liberdade de usar... usar... e usar drogas sem limites.
Apesar de tudo isto, sonho um dia, ver de novo seu pé limpo, o cabelo arrumado, a roupa elegante e, principalmente o amor brotando em seu coração. Sonho um sonho impossível talvez, mas, quem disse que os sonhos são sempre possíveis?
O importante é ter esperança e continuar sonhando.
Sabe que pode contar comigo na recuperação.
Irani de Castro
E-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.
(12) 3674-3899


















